
Começou de novo. Nem precisa calendário oficial pra avisar, porque quando a movimentação começa, todo mundo já sabe. É pré-candidato brotando em todo canto, com agenda cheia e uma disposição que, curiosamente, só aparece de quatro em quatro anos.
De repente, aquele que nunca deu as caras tá lá, firme, na rua de barro, distribuindo tapinha nas costas como se fosse vizinho antigo. Sorriso largo, conversa fácil, chamando todo mundo de amigo. E claro, sempre aparece uma criança pra completar a cena. Vai pro colo sem nem entender direito o que tá acontecendo, mas vira estrela da foto.
Os idosos também entram no roteiro. São ouvidos com atenção, recebem promessa, carinho e um olhar profundo que parece dizer “agora vai”. Tudo muito bonito, muito humano… pelo menos naquele momento.
E quando o pré-candidato chega, não chega sozinho. Já tem líder comunitário esperando, organizando tudo. É quase um evento. Tem fala, tem aplauso e, quando o povo se anima, sai até um coral improvisado. Todo mundo sorrindo, batendo palma, como se fosse uma grande recepção. E é mesmo, só não dá pra saber bem o que exatamente está sendo inaugurado.
Aí vem a parte mais simbólica de todas: a comida. Do nada, surge um amor imenso pela galinha caipira. O sujeito senta, come com gosto, elogia o tempero, pede farinha e ainda diz que aquilo é que é comida de verdade. Passa pelo mocotó, encara o sarrabulho, tudo com uma coragem que nem ele sabia que tinha. Se fizer careta, disfarça rápido. O importante é manter o personagem.
No meio disso tudo, começam as promessas. E não são poucas, nem pequenas. É obra pra todo lado, solução rápida pra problema antigo, dinheiro que aparece do nada. Tudo parece fácil, simples, resolvido. Dá até a impressão de que faltava só aquela conversa ali pra mudar tudo.
O mais engraçado é que a gente já viu esse filme. Muda o candidato, muda o cargo, muda até o coral… mas o roteiro é o mesmo. Cada cena parece repetida, cada fala já soa conhecida.
E mesmo assim, todo mundo assiste. Alguns acreditam, outros só observam, mas ninguém pode dizer que não reconhece a história.
No fim, entre o palanque e a panela, a campanha segue do jeito de sempre. Bem ensaiada, bem servida e com aquele tempero que a gente já sabe de cor.

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