Quando a raposa entra no palácio e vira convidada de honra

Meu caro Didi,

Depois de alguns dias de descanso merecido, estou de volta para te colocar a par de tudo o que acontece “daqui pra aí”.

Se eu te dissesse que assisti a uma notícia que parecia roteiro de novela ruim, você responderia que nem o autor mais criativo teria coragem. Pois teve. E a vida real, mais uma vez, resolveu debochar da nossa cara.

Imagine só: um traficante de armas e drogas, desses bem fichados, circulando livre, leve e solto pelo Palácio dos Bandeirantes. Não era visita guiada nem erro de endereço. Foi acompanhar, com todo orgulho do mundo, a posse da namorada como delegada da Polícia Civil. Sim, Didi, delegada. O cúmulo da harmonia institucional.

Fico te imaginando daí de cima, rindo com aquele ar de “eu avisei”. A raposa não só entrou no galinheiro como ganhou convite, passou pela porta da frente e ainda deve ter ouvido um “seja bem-vindo”. A segurança virou figurante, o critério saiu mais cedo e o controle de acesso, pelo visto, estava de folga.

O mais bonito é o simbolismo: o crime prestigiando a lei, de mãos dadas, sob aplausos. Um verdadeiro encontro de opostos… ou talvez nem tão opostos assim. Porque, do jeito que as coisas andam, a pergunta já não é como isso aconteceu, mas quantas vezes acontece sem ninguém perceber.

Quantas raposas estão por aí cuidando do galinheiro, reclamando das penas no chão e posando de guardiãs da moral? Quantas circulam pelos corredores do poder com cara de cidadão exemplar e um currículo que daria cadeia em três Estados diferentes?

Você sempre dizia, Didi, que o absurdo ia se normalizar. Pois pronto: normalizou, tirou foto, assinou a lista de presença e foi embora sem ser incomodado. Aqui embaixo, a gente só observa, entre o riso nervoso e a indignação cansada, tentando entender em que capítulo tudo saiu do controle.

Fico por aqui, com saudade e um sarcasmo que já virou mecanismo de sobrevivência!

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